sexta-feira, 23 de março de 2018

Por que não posso entrar na sala hoje? Carta manifesto por nenhum direito a menos


Paraisópolis. Quinta-feira, 22 de março de 2018, duas semanas de greve. Passa das 9h00 horas da manhã, poucos presentes, estamos na escola, foi convocada uma reunião com os pais numa tentativa de demonstração de respeito por eles e por suas crianças. O diretor está falando do momento em que vivemos e como isso afeta e afetará ainda mais aos professor@s e consequentemente às crianças e à qualidade da educação.
Pouco tempo depois, ele chega, está acompanhado de sua mãe, entra com ela na escola e ignorando os adultos sentados ali no refeitório passa direto em direção as salas, sua mãe o chama de volta, ele não entende, para no meio do caminho – por que não posso ir para a sala? Não é essa minha escola? (depois, descubro infelizmente que não, mas voltemos por ora a cena), sua mãe lhe chama mais uma vez, ele não volta, não quer voltar. Ele quer entrar e com, no máximo, seus dois anos e pouco, faz com a mãozinha o gesto de chamamento, sorrindo através da chupeta – vem mamãe, vamos – parece dizer com seu corpinho.
Não. Hoje não. Então a mãe vai até ele e carinhosamente o pega no colo, ele resiste choraminga, não entende o porquê disso. Depois se acalma e brinca na mesa do refeitório sem entender o motivo de não o terem deixado entrar. Também nós não entendemos pequeno, o porquê a educação está sendo atacada a cada dia, também nós não entendemos, pequeno, porque querem diminuir nosso salário, porque querem precarizar o que já é muitas vezes tão precário, não entendemos, não entendemos mesmo, porque tantos por tanto tempo e ainda hoje dizem defender a educação, defender que é por ela que podemos salvar nosso país e no entanto não se importam com quem faz a educação, com quem pisa no chão da escola.
São tantos os discursos, mas ninguém realmente nos explica e talvez por isso não consigamos entender nem nós, nem você nem tantas outras crianças que não tem vaga na escola ou na creche apesar de isso ser um direito de vocês. Porque essa escola, depois, infelizmente, soube que não é a sua escola, é a escola da sua irmã, por isso você sabe onde ficam as salas, mas não é a sua sala, você não conseguiu vaga aqui, apesar de se sentir tão pertencente e se fazer tão presente.
Sim, pequeno, são tantas as coisas que não entendemos. Não entendemos porque lutar por nossos direitos possa assustar tanto alguns que detêm o poder a ponto de mancharem suas mãos de sangue, com nosso sangue, pequeno, nosso sangue escorrendo de nossos corpos assustados por tanta brutalidade. Nosso sangue que corre em nossos corações e mentes angustiadas por tamanho desmanche que estamos sofrendo e que tentam nos impor a cada ano.
Mas, pequeno, nem tudo é incompreensão e angústia e vocês nos mostram a renovação da vida diariamente e de vocês, crianças, nós entendemos! Nós estudamos muito e nos esforçamos diariamente para entender vocês, porque vocês têm muito a nos ensinar, mas só quem tem ouvidos de ouvir e olhos de ver é que consegue aprender com vocês.
E como aprendemos, aprendemos que os tempos são diferentes, que brincar é tão, mas tão importante e que faz toda diferença na vida de todo mundo; aprendemos que ajudar é legal, que abraçar é bom, muito bom; aprendemos que às vezes o que mais precisamos é de um colinho amoroso; que elogios fazem bem; aprendemos o quão importante é saber ouvir; saber respeitar o outro; aprendemos que somos e não somos todos iguais e que está tudo bem. Aprendemos como é bom poder brincar lá fora, no parque, na grama, na terra; aprendemos que cair faz parte e que às vezes dói, dói muito e o mundo parece acabar, mas que depois passa, tudo passa; aprendemos a perdoar, muito fácil e rápido; a fazer amizades; a dividir a comida, a água; a compartilhar carinho, amor, cuidado.
Espero que também eles possam aprender com vocês, pequeno. Aprender que educação se faz sim, com amor e sensibilidade, mas que o amor, apesar de toda sua grandeza, não enche barrigas, não compra materiais e brinquedos, não paga contas, não garante uma formação inicial e continuada de qualidade, não paga funcionários da cozinha, da limpeza, não cai na conta no final do mês,  o amor não constrói mais escolas, não redige leis que garantam o direito de nossas crianças, e a qualidade de sua educação. É preciso estrutura para se educar com amor; é preciso material de qualidade; é preciso que professoras e professores tenham uma boa formação e sejam valorizados; é preciso que as crianças tenham, de fato, acesso a uma escola de qualidade, sem salas superlotadas e com estrutura para recebe-las; que elas sejam ouvidas e respeitadas; que os funcionários (terceirizados) das escolas sejam respeitados humana e profissionalmente; que se lute pela melhoria e não, que se precise a cada novo momento lutar para não perder direitos já conquistados.
É por essa luta, para não perdemos direitos e para que vocês não percam o, infelizmente ainda, parco direito de vocês que hoje você não pôde entrar, mas desejamos e lutamos para que você volte e não venha só trazer sua irmã, mas que também fique, nos mostrando a nós atentos educadores tudo que vocês têm para nos ensinar.
Uma professora




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Era uma vez um muro...

Era uma vez um muro, todo pichado com palavras estranhas... Esse muro não tinha cor, tampouco refletia o universo ao qual estava "murando", era um muro sem sentido... Na verdade, muros por si só não fazem muito sentido...



Este era o muro do CEMEI Irapará, ele não tinha cor, mas decidimos que "ter uma cor" não poderia nos satisfazer... Decidimos que o muro deveria representar a proposta pedagógica da escola: integração, protagonismo infantil, escuta às crianças... E nesse sentido, as crianças e as famílias deveriam "fazer parte" daquilo que seria estampado no muro: Cada bebê e criança do CEMEI Irapará.

Fotografamos todos os bebês e crianças e imprimimos suas fotos. 

Com a foto, cada turma realizou trabalhos artísticos para compôr uma exposição no dia da família na escola em setembro de 2017. 








Nesse dia, as famílias junto de suas crianças, pegaram o papel com o contorno do corpo da criança e se dirigiram ao muro para fazer o graffiti.


Esse trabalho foi acontecendo mesmo após o Dia da Família marcado em setembro, de forma que todas as crianças pudessem ser representadas no muro, já que nem todas as famílias compareceram ao evento. Então, durante todo o mês de setembro, outubro... Crianças com seus parentes ou com suas professoras puderam deixar sua marca no muro da escola.


Quando o muro já estava bem colorido, as turmas fizeram uma visita e foi muito interessante a reação das crianças se reconhecendo no muro, mostrando aos colegas e professoras: "Essa sou eu!", "Olha aqui a minha irmã ficou do meu lado", "minha mãe que fez comigo", "eu escolhi a cor azul"... 

E agora, já que temos um muro, esse muro expressa alegria, participação, integração, singularidade, e acima de tudo, respeito e representatividade de uma infância que É fazedora de cultura, no hoje e no agora.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Datas comemorativas x Dia da família x Dia das crianças


O Projeto Político e Pedagógico do CEMEI Irapará discute sobre a relevância para o desenvolvimento infantil ao se trabalhar datas comemorativas na escola, uma vez que a maioria dessas datas trazem questões de cunho religioso quando a escola é laica, mercadológico quando o que pretendemos é valorizar as vivências e não os produtos ou tradicionalmente são realizadas com representações estereotipadas de outras culturas.

Portanto, não realizamos dia das mães, dia dos pais mas valorizamos o dia da família que acolhe os mais diversos modelos de família. Temos crianças que são criadas por avós, crianças com duas mães, com pais separados, pais desconhecidos... 


Esses foram alguns momentos do dia da família na escola que aconteceu em junho com apresentações de brincadeiras e oficinas como abayomi, chocalhos, elefante, boneco de alpiste e massinha:




Oficina de chocalhos





Oficina boneco de alpiste.





Oficina Abayomi


Apresentação Roda de Capoeira dos pais da Ester Sophia - B2


Apresentação de brincadeira de roda


Apresentação de canções do repertório dos bebês com suas famílias

Momento de descontração da festa


Oficina de massinha de modelar


Apesar dessa concepção, em outubro (dia das crianças) recebemos doações de roupas,  brinquedos, calçados e doces de uma instituição japonesa e realizamos uma festa no dia das crianças. 


As crianças do infantil 5A, 5C e 6A prepararam uma apresentação de uma música em japonês para acolher nossos visitantes. Foi muito emocionante!



Foi uma semana com programação intensa e divertida, pensada com carinho para garantir aos nossos bebês e crianças o máximo de diversão! Alugamos brinquedos infláveis com o apoio da Associação de Pais e Mestres, tivemos um dia especial para brincar com água, professoras prepararam uma contação de história da Chapeuzinho Vermelho e as cozinheiras fizeram um bolo especial dos Minions que foi uma surpresa!  

Teatro da Chapeuzinho Vermelho encenado pelas professoras.

Katia, Juliene e Marli com o bolo surpresa!

Baile à fantasia




Pintura de rosto

Brincadeiras com água



 Foram atividades divertidas com oportunidade de integração de todos os bebês e crianças e também oportunidade de participação ativa das famílias.









terça-feira, 14 de novembro de 2017

Construção do conhecimento e a integração com a natureza


 
 
A aprendizagem é um processo dinâmico e complexo que deve ser facilitado a partir das oportunidades de múltiplas vivências que considerem as diversas infâncias, com suas vozes, corpos, sentimentos e culturas.
A palavra “Aprender” tem origem no latim e significa “levar para junto de si”, acreditamos que bebês e crianças aprendem em sua inteireza ou seja, com todo o seu corpo, sentimentos, emoções e atribuindo sentido ao que é vivido, deste modo a aprendizagem não se dá de forma única nem em disciplinas fragmentadas.
 
Crianças do infantil 6A quando descobriram as formigas no parque. Essa descoberta gerou o projeto do primeiro semestre dessa turma.

Observando o formigueiro.

Turma do infantil 5C plantando maracujá.
 
Observe a charge de Francesco Tonucci, as crianças estão inseridas em um espaço rodeado por árvores, no entanto, a professora limita a oportunidade de aprendizagem ao se remeter à ilustração de uma árvore para “ensinar” algo sobre árvore às crianças, que poderiam ao invés de observar a ilustração: tocar, sentir e experimentar a árvore usando todo o corpo com todos os sentidos.

Charge de Francesco Tonucci

 
Crianças do infantil brincando de subir e escorregar "no morro".

"Colhendo os matinhos" - brincadeiras que surgem de forma espontânea.


Crianças do MGII B escorregando na grama com papelão.

Na nossa concepção de educação os bebês e as crianças aprendem “Quando estão por inteiro nas interações que estabelecem com as coisas, as pessoas, os objetos ao seu redor, tanto os fenômenos da natureza como os objetos criados pelos seres humanos (...). Desse modo, quanto mais curiosas forem e quanto mais objetos apresentarmos para sua exploração e seu uso, quanto mais fenômenos da natureza observarem, com quanto mais pessoas estabelecerem contato afetuoso, quanto mais linguagens usarem mais potente a sua constituição como pessoa, mais criativas e capazes de expressar por diferentes linguagens e mais capazes de interpretar o que veem e vivem.” (Currículo Integrador da Infância Paulistana, 2015).


Bebês experimentando o contato com a areia do parque.

Bebês em seu primeiro contato com a grama do CEMEI
 
 
 
Portanto a aprendizagem depende da interação entre bebês e crianças e do acesso que elas têm ao mundo que se apresenta para elas.
Uma prática pedagógica que tanto os bebês quanto as crianças gostam bastante, é de colher elementos naturais "no quintal" para realizar trabalhos como colagens e desenhos.

Trabalho de colagem com elementos naturais.






"A educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura e a escola deve representar a vida presente - tão real e vital para o aluno como o que ele vive em casa, no bairro ou no pátio" (DEWEY, 1897).